Kalangô — o trovão verde do sertão pós-fogo
Criação: Moacir Tôrres - 2023
Quando o mundo quebrou, o Nordeste virou um mosaico de poeira, açudes secos e vilarejos que aprenderam a medir a vida em litros. No vácuo, quem mandava era o Coronel Lucas: dono das rotas de cisterna, dos geradores remendados e do medo. Cobrança era em água e silêncio.
Foi aí que ele apareceu — primeiro como risco verde cortando o céu amarelo de mormaço.
Kalangô não era boato: era um vulto inteiro de verde — roupa e capuz fechado cobrindo toda a cabeça, sem rosto à mostra, só dois olhos acesos como brasa fria. Diziam que tinha caído num barreiro atingido por um raio “diferente” durante a última tempestade de verdade; outros, que era filho de vaqueiro e rezadeira, marcado pelo sol. O certo é que ele voava — não como pássaro, mas como quem risca o vento, deixando um zunido curto e um cheiro de ozônio — e soltava raios das mãos, estalos azuis que rachavam o ar seco.
Ele não pousava em praça pra discurso. Descia só o suficiente pra gente ver o capuz verde balançar e os olhos brilharem. No bolso do gibão por baixo do manto, carregava sementes. Plantava sombra onde podia: consertava bomba, limpava filtro, ensinava a fazer cacimba que não assoreia. E quando o Coronel apertava, Kalangô riscava o céu.
O plano foi simples e impossível. Lucas guardava três cisternas-mãe — Curral, Alto e Cemitério — e fazia delas trono. Numa noite de lua fina, Kalangô cortou o céu em voo baixo, silencioso, e desceu sobre o Curral. Dois capangas com lanternas; ele apagou o medo deles com um clarão curto — um raio contido, sem fogo, só luz e trovão — que fritou os fios do portão.
Abriu registros antigos e devolveu a água aos canais de irrigação que os mais velhos ainda sabiam de cor. De manhã, a terra amanheceu úmida.
Lucas respondeu do jeito dele: “Aparece, ou eu seco a feira.” Kalangô apareceu no pior sol, às duas da tarde, quando o sertão vira brasa. O jipe do coronel entrou levantando poeira. Lucas desceu de peito aberto, revólver cromado, sorriso ensaiado.
Kalangô pairou três palmos acima do chão, capuz verde cobrindo tudo, olhos como duas luas acesas. Não gritou. “Água não é sua.”
O primeiro tiro veio rápido. Kalangô subiu num rasgo de vento; o projétil comeu poeira. De cima, abriu as mãos e deixou um arco de raios correr entre os dedos — não para matar, para desarmar: o metal do tambor dilatou, entortou, travou. Um segundo raio lambeu o chão e levantou uma cortina de poeira eletrificada que fez as armas formigarem nas mãos dos capangas, que largaram tudo como se queimasse.
Lucas correu pro jipe. Kalangô mergulhou em voo, pousou leve na capota, arrancou a chave com um puxão e a jogou no meio da praça.
Os olhos iluminados varreram a roda de gente. “Quem quiser mandar, que aprenda a dividir.” As mulheres abriram as tampas das cisternas; as crianças vieram com baldes. O coronel ficou ali, menor, tendo que pedir água como todo mundo.
Desde então, Kalangô cruza o sertão onde a sede vira chicote. Quando alguém tranca a água e chama isso de poder, o céu ganha um risco verde. Ele voa baixo, solta raios curtos das mãos — só o bastante pra desmontar a violência — e some no horizonte, capuz fechado, olhos acesos, deixando atrás um cheiro de chuva que ainda não veio, mas que a gente jura que vai chegar.
Se perguntam se é herói, ele responde do jeito dele: pousa, entrega um punhado de sementes e aponta pro açude.
“Herói é quem divide o último copo.”

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